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segunda-feira, 4 de abril de 2011

Culpada

Pra começar o blog... um texto de 2009...

Até houveram algumas tentativas de minha parte. Faltam números para falar de todas as vezes em que engoli a seco os desaforos e atos que um dia desaprovei. Eu vi minha personalidade, um de meus únicos troféus, virar pó.
E eu tenho certeza de que todas as culpas são minhas. Eu não quis desistir. Não aceitei a idéia de meio castelo ser desperdiçado. Fui só eu quem aceitou a condição de não ser a tua prioridade. Por menores que fossem os avisos que estavam pregados nas paredes, você me deixou pistas desde o início de que seria assim. Você em seu mundo. E eu com minha fantasia de que tudo poderia mudar. Você dizendo que me amava e eu fingindo que acreditar em suas palavras bastavam.
Foi mesmo o tempo que me cegou. E foi por comodidade que permaneci. Não pela financeira que sustenta milhões de casamentos. Não por nossos filhos que precisam de um referencial. Não por ter o seu nome carimbado em minha identidade.
Eu simplesmente transformei meu coração em um ser atrofiado, sem ousadia, que se contenta em ouvir apenas um eu te amo em datas festivas. Que não se importa mais em dormir com pés gelados e costas batendo em costas. Estou criando há 25 anos um coração acomodado.
A solidão e a indiferença tornaram-se com o tempo tão comum quanto a marca da aliança, quanto minha solidão nas sextas-feiras e domingos chuvosos.
Paixão e entusiasmo foram esquecidos como a nossa casa de praia, que recebe reparos apenas nas temporadas. Um cotidiano foi montado para ser seguido 365 dias consecutivos. E as promessas, beijos trocados todos os finais de ano duram tanto quanto uma garrafa de champagne, e tem o mesmo efeito tranqüilizante do álcool. E foi dessa forma, com nossos sorrisos de plástico e filhos bem educados que convencemos vizinhos e parentes de que somos um casal feliz. Que uma bela casa, uma conta bancária de saldo positivo e restaurantes caros aos finais de semana são o bastante para manter um casamento estável. E até você foi convencido pela teoria. Teve todos os seus sonos profundos durante esses anos que dormiu ao meu lado, sem ao menos pensar em mudanças, sem nem ao menos pensar em me deixar, em deixar essas mentiras.
Mas todos estão mesmo certos ao relacionarem tudo isso à estabilidade. Tola mesmo sou eu em perceber aos 40 anos que estabilidade não completa ninguém, que tudo que você me deu foram sentimentos supérfluos que não podiam me fazer feliz, que esse casamento não me envolveu nem por um segundo e que faz muita falta o gosto do risco, do medo de perder e dos ciúmes bobos.
O caos começou, foi agora com a maturidade e não quando eu disse sim pra você em frente a um padre. E a culpa realmente é toda minha.

Ainda não acredito que consegui, como se teu corpo estivesse ao léu, como se tua carcaça fosse apenas mais uma peça morta, como se fosse um animal ao relento e eu te chutasse as entranhas. Toda aquela angústia que eu sentia ao ir me aprisionando em teus braços foi extraído de mim de uma só vez, e o alívio foi se tornando a resposta às dúvidas que eu tinha.

Era ali, ao lado do teu caixão que consegui dizer tudo a você, no começo aos prantos e depois com calma e a leveza de quem conquistou uma etapa na vida, apesar de triste, eu estava feliz, vendo que teu corpo estava em paz, daquele mesmo jeito, deitado, estático como ao longo dos anos ficou ao meu lado. E vi ali, que era o melhor jeito que ficava, lembrei que apesar do tempo, das brigas, da indiferença, eu ainda amava ver você dormindo. Aqueles teus olhos castanhos que me encantaram no dia em que fomos a aquele show de dezembro, que me abraçou tão forte e me falou que queria me ter pela primeira vez, agora vendados pela tua pálpebra, eram meu consolo, de que apesar de ter me prometido honras, fidelidade e amor até que a morte nos separasse, você ainda achava que tudo aquilo tinha acontecido. Que o tempo que passou longe de mim e das crianças, viajando ou gastando seu tempo em jogos caros e happy hours com seus amigos, não tenha lhe causado tanta ausência de vida quanto causou a mim.

4 comentários:

Unknown disse...

realmente merecia um blog, ótimo!!!!!

Presiso mudar disse...

como começar ? ok!

Carla , Adoreeeei
escreva mais que serei sua number one fan (y)
Bj
Giovanna Pirolla
SAPS

Andressa Dantas disse...

Vai se f****

escreve muito! amei o texto, até me arrepiou!
amei, amei, amei!!!!!!

Unknown disse...

Uau....adorei!!!

Quando vai postar o próximo?

Beijos

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